03/01/2010

Seu sistema nervoso fora meticulosamente cultivado por algumas gotas de vodka, o suficiente para entorpecer defeitos em primeiro plano. Não era apenas sua garganta que queimava ou suas têmporas que eram alfinetadas, mas sim seu coração que conquistava o já citado primeiro plano – pouco a pouco, dissimulando minúcias para causar um arrependimento espesso mais tarde. Via-se agora em um ritual de segurar a garrafa perto de si apenas pelo sentimento de ter algo nas mãos. Assim, talvez, pudesse aquietar a angústia de se ver nas mãos de outro. Impotente, ser pequeno, objeto manuseado sem cuidado; sentia-se assim. Suas mãos circundavam a garrafa, girando-a enquanto uma risada nervosa preenchia o ar. Sentava-se agora. Era o mais indicado, pois se não fosse o álcool a lhe derrubar, seriam as palavras ditas que lhe tirariam o chão. Tentava sorrir por não saber o que fazer, mas a palpitação vinha como ondas quentes de tristeza, que baqueavam continuamente seu interior. Havia, enfim, roubado o valor daquele momento. Havia feito dele um refém, desejava trocá-lo por mais tempo para pensar – pensar em quê? Perguntava-se se algum dia ater-se-ia a algo inocente sem deixar suas marcas nele. Era o que fazia agora com um sentimento lhano, cravando suas unhas para segurá-lo. Não sabia mantê-lo sem agarrá-lo. Quão profano. Era tudo tão triste... E não saberia como ajeitar tudo mais tarde. Prendia-se nessa bulimia sentimental, onde as palavras lhe escapavam os lábios como a conseqüência de todo o álcool. Mas por que estragar esse momento de forma tão fácil? – Você bebeu. Continuou sorrindo, era tudo tão bonito. Era tudo tão triste. Um ano novo havia se aproximado da janela para ser educado e cumprimentar a todos. Congratulou-se, o planeta reiniciava sua trajetória em volta do sol e havia uma nova chance de recomeçar sua trajetória para dentro dos seus sentimentos. Quem acreditaria, pois, nas declarações de um dipsomaníaco traiçoeiro? Havia de arcar com as conseqüências de optar por uma máscara tão superficial. Desaxiomatizara seu amor com as primeiras gotas de álcool e lembrar-se-ia daquele instante como ninguém. As palavras dançaram por seus lábios enquanto colocava tudo em palavras, declarando-se de forma límpida. Abraçou a decepção. “Se essa lua fosse minha / ninguém chegava perto dela...” Mas a lua não era sua. Em vão, em vão... O álcool, ao menos, estava em suas mãos.

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"Baseado em fatos reais."

3 comentários:

Manuella disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuella disse...

Fatos reais hein... que ano novo curioso. Adorei uma da metáforas , mas tome cuidado dipsomaníaca traiçoeira.
Bjao
PS.: voce é uma palavra!

Manuella disse...

Ode a bebedeira! De um gole para o santo.